Imersa.


Basta ser

Pensei em como o consumismo desenfreado muitas vezes molda minha noção de felicidade. É a famosa dicotomia entre o ter e ser. “Só vou ser feliz quando conseguir comprar minha casa própria” ou “quando tiver uma carreira estabelecida, autonomia financeira e um passaporte lotado, me sentirei realizada”. Nessa lógica, todo pertencimento do aqui e agora não passam de poeira ao vento, uma gota de orvalho na neblina. Como se a felicidade dependesse do sucesso em conseguir morder os próprios dentes. A vida como um imperativo do “querer” que leva à imensa frustração de “ser”.

Pelo padrão estar se…


Pintei as unhas de vermelho numa quinta feira de céu nublado. No contraste entre o acinzentado do dia e o tom aberto desta cor primária, a ponta dos meus dedos pareciam um grande alerta. Na memória, refiz o filme de todas as vezes em que fui vermelho. Paixão, intensidade, fogo. Na boca, no brinco, na bolsa, no sapato. Por onde andava, havia vermelho em mim. …


ah coração!

o que fiz contigo?

como pude deixar a torneira aberta

a ponto de inundar a casa inteira

a nós afogar em águas salgadas

que curativos malfeitos fiz em ti

tapei buracos com terra seca

você não conseguiu florir

não adubei, não me atentei

dei a você o alimento errado

nos empasinamos de comida rápida,

mal preparada, servida fria

comemos restos do dia seguinte

e juramos estar satisfeitos

só aumentamos a fome

acelerei você diversas vezes por alarmes falsos

palpitamos pela frustração,

nos coloquei em risco

não consegui alinhar a respiração

quis pegar você na mão

sentir nossas dores…


“Você dança como sua vida dependesse disso”

“E depende.”

Bruna Barros

a escrita como necessidade vital da minha existência. autora de inúmeros textos espalhados em massas e gavetas pessoais.

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